O Fabricante Do Fogo - 7. A Chuva - Central dos Moldes

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outubro 11, 2020

O Fabricante Do Fogo - 7. A Chuva

Tarja O Fabricante Do Fogo

O mês de fevereiro se arrastava lento e aguado, dias quentes de dar modorra até em saci-pererê, de tirar o fôlego. Sol a pino, mulheres jogando água na rua de terra, para não levantar poeira, com suas velhas mangueiras coloridas e o sol castigando o velho Brooklin Paulista inclemente! imagens ao longe se distorciam talvez até pela evaporação das últimas gotículas de água do solo, qual filme desfocado ou embaçado quem sabe? Grossos rolos de cumulus nimbus vinham se formando desde o meio-dia... Muito altos e brancos para encanto da molecada que neles identificava formas, as mais diversas... Carneiros, monstros, caras, narizes, cavalos, etc... E tomavam uma coloração bonita: os mais altos, brancos como a neve, mas em suas bases com aquela cor de chumbo, triste e ameaçadora. Notava-se com nitidez que, a cada minuto, os cúmulos subiam mais e mais até que seus ápices se acha tavam como se houvesse um vidro lá em cima que impedisse a subida. Fiapos de nuvens viravam, em pouco tempo, formas imensas e abrangentes ocupando os últimos lugares azuis do céu, e era hora da molecada ir para a segurança de suas casas ao abrigo dos raios que certamente viriam e da chuva que não tardaria. Bem que César se lembrou antes de entrar do ditado que disseram ser dos tempos dos mais velhos no dia anterior: céu pedrento é chuva e vento!
E era mesmo! no dia anterior o céu parecia povoado de carneirinhos brancos e uniformes, e agora era aquilo ali... Chuva na certa.
Então, aquele que seria um lindo dia de sol travestia-se em um fenômeno assustador... Os raios logo vieram para lembrar as senhoras de sua potência e do perigo ancestral que representavam, tubos de alta voltagem começaram a cortar os céus, e as senhoras, num misto de terror e respeito, corriam a fechar janelas, portas, tirar roupas do varal e desligar os aparelhos de rádio (diziam que o raio corria pelo fio). Contavam as crianças para ver se não faltava nenhuma, e não raro os faziam ficar por perto, ou por um instinto de proteção ou por puro medo mesmo. O tempo prenunciava... Raios cada vez mais fortes vinham pelas imediações, caía a noite em pleno dia... Os primeiros trovões como terremotos atordoa vão as almas simples e humildes com seu ribombar tenebroso arrancando exclamações da mulherada:
- Santa Bárbara! São Jerônimo! - Diziam medrosas como se tal lembrança dos santos imunizasse suas casas da inclemência dos céus.
A luz falta, o medo aumenta.
- César... Vai pegar a lamparina... Rápido!
E lá ia o menino abrindo gavetas uma atrás da outra alegre, pois gostava de ver a chama bruxuleante da pequena lamparina boiando no copo com água no fundo e óleo em cima, mas, nunca achava o que a mãe pedia... tinha uma dificuldade imensa de achar coisas que não tinha sido ele que tinha guardado, e, não demorou veio a bronca.
- mas será o Benedito que você nunca acha nada? Tá aqui,... ó!
Caixinha de lamparinas na mão, copo na outra, um pouco de água, óleo de cozinha, a lamparina colocada boiando, um palito de fósforo e surge a chama clara iluminando a casa em plena tarde. De repente o estalo:
"Cllllaaaac" ,... Um arrepio no corpo de todos, o clarão cegante, os pelos eriçados, o cheiro de coisa queimada e a constatação de que acabara de cair um raio no quintal da casa seguido de transe da mãe que abraça os filhos, olhos cheios de terror um medo infinito diante do incerto, crianças sem entender nada, os segundos que passam e a certeza de que não havia danos maiores.
O vento.
Veio de repente, e avassalador, derrubando árvores, levando latas de lixo, misturando a poeira ao ar revolto e as folhas que bailavam loucas no acalanto da tempestade iminente. Veio seguido e orientado por Eolo furioso, bochechas cheias, rei do vendaval arrancando telhas, assustando o cavalos, dispersando os bois, transindo de medo e respeito todos os pássaros, ratos, preás, socós e tudo enfim... O Eolo estava furioso com alguma coisa que, deveria ser muito grave para justificar tanta raiva, soprava para todos os lados, entrava por baixo das portas levando consigo as poucas gotas de chuva que começavam a cair, invadia telhas, arrancava telhados inteiros flutuando com os mesmos no ar até arremessa-los de encontro a qualquer coisa despedaçando-os! Adorava, este estranho Deus, ver as árvores vergando-se à sua potência, estourando as mais teimosas, virando os guarda-chuvas, pobrezinhos, pelo avesso, arrancava os ninhos dos pássaros, influencia as águas das represas e açudes, preparava, enfim, o espírito humano para o pior.
A natureza volvia e ia, vomitava seu fel, mostrava suas entranhas. Vinda do espaço, infinito para a criançada, a primeira pedra espatifou-se contra a janela, com o som característico de sua violência. O mundo mudara! O inferno celeste se aproximava a cada segundo e o ronco das pedras ensurdecia e coalhava o chão qual vômito de nenê... Tudo branco, nos cantos pilhas de gelo se formavam vinda do nada, os telhados rebatiam valentemente o que podiam, mas, vez por outra uma pedra maior e a parar no estuque de uma casa premiada para tal. Eolo ria de sua força e poder, mas tendo tudo o que queria foi ter a outras plagas para começar tudo de novo, as pedras foram diminuindo, o vento abrandando e aí sim sim os cúmulos mostrado a que vieram... Um verdadeiro dilúvio se abateu sobre o que sobrou do preâmbulo, encharcando em segundos aquele solo seco e esturricado, encharcando sem dó, menos ainda piedade. As águas começaram a correr em enxurradas fortes levando pedras, paus, lama, cacos de vidro, areia; caía forte e densa como uma cortina de água quase como um tecido. A lamparina acesa iluminava o interior da casa enquanto as crianças treinavam fazer imagens na parede com a sombra projetada de suas mãozinhas, ora uma pomba, ora um índio, de outra feita um veado, um cão, e a chuva continuava já transformando a rua num verdadeiro rio.
A lamparina sem graça pois o repertório de bichinhos era pequeno, e as atenções voltam-se para a rua escura onde a chuva caía em grossos pingos. Rostinhos na janela, vidro teimoso em embaçar, manguinhas esfregando-o e abrindo aquele clarinho que permitia ver lá fora os pingos de água formando as tacinhas quase cristal quando batiam no chão, parecidas com as coroas de rei das fábulas de La Fontaine... Lindas. Narizes esmagados, aquele friozinho típico de chuva, a vontade grande de por uma blusinha, mas o espetáculo e o aconchego do lar tudo compensavam... Até mesmo aquele friozinho. Um vizinho que passa cabisbaixo agora sobre seu guarda-chuva, galochas nos pés, andava encorujado em meio ao temporal, molhado por inteiro. Passa indiferente aos narizes colados nos vidros e segue rua abaixo. Logo após uma carroça com uma figura diferente... Chapéu na cabeça baixa, capa, chicote morto em uma das mãos, a outra nas rédeas, o cavalo pingando por todo o corpo, arreios escuros pela água, passo lento, sem pressa. Entra por um lado do vidro, percorre o campo visual e sai pelo outro lado, lento. As horas escoam, à tarde vai ao fim.

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