O Fabricante Do Fogo - 6. O Vampiro - Central dos Moldes

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outubro 11, 2020

O Fabricante Do Fogo - 6. O Vampiro

Tarja O Fabricante Do Fogo

Ninguém, mas ninguém mesmo, no bairro do Brooklin deixava de sentir um verdadeiro calafrio quando se falava do vampiro.
Um vampiro, mas um vampiro de verdade no bairro do Brooklin Velho, visto e jurado por inúmeras pessoas, chupando sangue de cavalo no pasto, e inclusive pousando no telhado da D. Eufrosina... A benzedeira! As crianças ouviam os relatos a luz do dia, corriam para casa nos primeiros sinais do pôr do sol, e lá ficavam quietinhas ouvindo rádio ou traquinando com seus brinquedos... Bem... Quase todas porque aqueles pestinhas continuavam normalmente assando os seus passarinhos até altas horas (naquele tempo umas nove horas da noite). Não saiam do mato nem que eu mesmo pegasse fogo, como aconteceu uma vez onde invés de fugirem foram ver os ninhos dos passarinhos para ver se tinham queimado (judiação... Matavam com o mesmo carinho que zelavam pelos bichinhos). 
- Será que esse troço existe mesmo? Perguntou Makoto.
- Você já viu algum sua besta? Respondeu se o irmão Inhotim.
- Não, mas já vi uns morcegão maior que aqueles que a gente pega no telhado do Tidão com vara de pescar, tá?
- Aqueles que a gente pega no telhado, Makoto, são pequenininhos perto disso que o pessoal tá falando, respondeu, e esse tal de vampiro, meu pai falou que só tem em Mandagascar, E que esse negócio de gente virar vampiro é tudo mentira - (Seu Martins vivia estragando os mitos da molecada)... Você não criava rato?
- É... Tinha uns lá em casa na caixa...
- Algum rato seu morreu de velho?
- Olha, respondeu pensativo puxando pela memória enquanto acertava uma rolinha esquálida no espeto de taquara... Morreu bem uns cinco.
- Taí!
- Tá aí o quê? Perguntou o Tico.
- Tá aí porra... Seus ratos viraram morcego?
- Não, não viraram não...
- Makoto: nenhum virou morcego, certo? Então gente também não vira.
- É... Concordou... Mas sua mãe acredita que gente vira vampiro, não é?
- É, mas... E foi aí que começou a ideia a tomar corpo na mente do esquelético Tidão.
- Sabe de uma coisa?
- O que Tidão...?
- Eu tenho aquela capa velha que era do meu bisavô do tempo da guerra... Sabe qual é né?
- Acho que você vai levar uma surra, antecipou Rogério, com um peito de pardal na boca, que até então ficara quieto... Não inventa com esses negócios que sua mãe pode ter um troço.
- Tem nada... Cato um papelão branco, faço uns dentão, coloco a capa, espero ela sair e pronto dou um tremendo susto.
- E depois?
- Ora, não enche o saco.
E foi... Entrou na casa, pegou a capa, um pedaço de caixa de papelão, uma tesoura, fez os dentes de vampiro, desarrumou bem os cabelos, se trancou no banheiro, e já rindo de ante-mão do susto que pregaria, colocou os dentes de costas para o espelho, ficou só de calção, ajeitou a capa que se abria em forma de meia-lua perfeita, e virou de repente para o espelho... Quase gritou consigo mesmo... Cuspiu os dentes, se refez e cinicamente aprovou o aparato. Era só esperar a hora certa... Escondeu tudo debaixo da cama, e disposto a tudo, esperou pelo horário, em que invariavelmente sua mãe iria à mercearia do seu Ono.
Sozinho e esperando, as horas pareciam que não se moviam... Até que de repente sua mãe deu o aviso:
- Tidão, fica aqui olhando o Pelanquinha que vou pegar uma lata de sardinha.
- Tá bom, mãe, pode ir.
O demoninho agitou-se dentro do moleque, correu para cima, pegou a capa, os dentes, foi para o espelho, acertou tudo direitinho, desmanchou os cabelos e, achando que ainda não estava bom, pegou um chapéu velho do seu pai, enterrou na cabeça e correu para o muro do lado esquerdo da casa, agachou dentro do terreno da tinturaria do seu Hirau. Esperou um século! Fazia frio, e quanto mais frio sentia mais se encorujava. Quando vinha alguém, dava uma olhadinha, e como sabia que seu corpo era mínimo para seus 10 anos encolhia-se e sumia debaixo da capa até que o transeunte passasse. Eis que chega o grande momento... Sua mãe vinha vindo, pacotes na mão, passo rápido. Comum franco-atirador esperou até que ela pusesse a mão no portão, e neste átimo lembrou-se que deveria fazer algum tipo de barulho mas não tinha ensaiado nenhum... Vai chiado mesmo, pensou, e num relance saltou no espaço tá indo bem aos pés de sua mãe, os dentes medonhos arreganhados, capa esvoaçando ao vento, chapéu enterrado na cabeça... Irreconhecível, e chiando:
- Shshshshshshshshshshshshshshhhhhhhh!!!
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!
E lá vai D. Maria em desabalada carreira, mas seu susto dela foi grande, o dele não foi menor, que esquecendo de tudo correu atrás da desavisada mãe, com dentes, chapéu, capa e tudo e, ainda por cima gritando:
- Ei... Ei... Ei...
- D. Maria não queria olhar... Já estava esperando que aqueles dentes se enterrar sem em seu pescoço, e no fundo já estava até consolada enviar vampiro também, só que gritava como doida enquanto o funesto ato não se concretizava...
- SOCORRO!!! SOCOOOORRROOO!!!
- Tidão percebendo que não conseguia falar com os dentes colados em sua gengiva caiu na besteira de tirá-los e explicar tudo:
- Ô MÃE... SOU EU...
Dona Maria saiu do lindo ao ouvir a voz do filho amado que explicava tudo e acabava com a cena de terror, abriu os olhos ainda receosa e dirigiu-os ao espectro medonho, reconhecendo já no claro da arandela a capa surrada, o chapéu velho de seu marido e vendo que o vampiro nada mais era que seu amado filhinho, Tidãozinho, pregou-lhe a mão alí mesmo com os elogios de praxe:
- DESGRAÇADO!!!! QUASE ME MATOU DE SUSTO...
O apelo de então só mudou o tom e o dono:
- SOCORRO... SOCOOORROOOOO... Ela tá me matando...
Seu Tunico que vinha vindo pelos primeiros gritos, ainda teve tempo de entender o ocorrido e interferir antes que aquela bunda mirrada passasse do vermelho vivo para o roxo dolorido, e separou com toda delicadeza mãe e vampiro, aliás, mãe e filho do massacre final.
O certo é que, desde então, por muitos e muitos lustros não surgiu mas nenhum vampiro, ou vampirinho, que seja, no bairro Brooklin Velho.

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