O Fabricante Do Fogo - 4. A Pipona - Central dos Moldes

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outubro 11, 2020

O Fabricante Do Fogo - 4. A Pipona

    Na semana seguinte o Sr. Martins, que por aquela época deveria ter seus trinta anos, resolveu usar suas máquinas de marcenaria para um objetivo diferente. Não faria nem banquetas, nem piões, nem tornearia vazinhos nem nada. Chamou os filhos e propôs que fizessem um barrilhete... só que não seria um barrilhete comum! Seria um grandão! Pegou uma tábua de pinho, acertou a serra circular, ligou para que o ruído enchesse a garagem toda, mediu daqui, dalí, colocou a tábua e foi tirando as "varetas". Um metro e vinte cada uma! Tidão deveria ter seus sete a oito anos, e acompanhava atento os preparativos. Naninho olhava também com atenção e não perdiam nenhum lance de mais uma aventura certa. Sr. Martins, compenetrado ia montando e explicando:
- Olha... aqui a gente tem que amarrar.
Falava e mostrava...
- Nano, põe o dedo aqui: Ó! Isso! Agora cuidado que eu vou apertar o nó... apertava por baixo do pequeno dedo que segurava o ponto e passava para o outro filho.
- Tidão, segura aqui... vai!... Isso!
E no final de algumas meias horas as duas pipas estavam prontas. Grandes sem dúvida alguma.
- Agora, falava o pai, vamos ter que arrumar um rabo para o barrilhete.
- Rabo?
- É Tidão, senão ela começa a dar cabeçadas e fica rolando sem parar!
- Rabo de quê? - Perguntou Naninho.
- Espera aí que eu já venho... mas não mexam em nada, heim?... preveniu preocupado com as máquinas.
Quando seu Martins voltou, voltou com D. Maria, brava.
- Mas Bené... o que você está fazendo?... Prá que essas gravatas?...
- É pros barrilhetes, respondia sorrindo, se divertindo muito com a própria criancice.
- Mas vai estragar todas as gravatas?...
- Não, falava mentiroso piscando para os filhos... Não estraga não!!
E começou a amarrar uma na outra, formando uma imenssa tripa de gravatas com quase sete metros cada uma... de quinze a vinte gravatas em cada rabo!!!
Pegou os filhos pela mão, enrrolou um fio grande, explicando que era barbante elefante, catou as crianças e toca para o outro lado do rio, a uns quinhentos métros de sua casa. Caminhavam como heróis, a molecada da rua ia atrás até a esquina, perguntando, apreciando enquanto os filhos agiam como verdadeiros vitoriosos.
- E agora? Como é que faz para elas subirem?
- Olha, o vento está bom... Você fica aqui, falou para o pequeno Tidão, com seus minúsculos quinze quilos de peso. Segura dos dois lados deste pau e deixa a linha correr comigo, tá?
- Tá!
Pegou a pipa imensa para o tamanho do moleque, levou o Naninho junto, Naninho cuidava do rabo, Sr. Martins do barrilhete, afastou-se mais ou menos quarenta metros, arrumou o rabo do papagaio, olhou para Tidãozinho que estava firme no pau com o barbante elefante e avisou:
- Quando eu soltar você segura heim?
- Tá bom pai... pode soltar!, respondeu animado, coraçãozinho no pescoço, um medo danado de que alguma coisa saísse errado, mas não largaria de modo algum!!!
O Pai olhou o rumo do vento e soltou o papagaio que não se fez de rogado, subindo rapidamente, mas mudando de direção e se afastando do local onde fora solto pelo menos uns trinta metros, pois o vento alto soprava em outra direção.
Tidãozinho não aguentava de tanta felicidade... Punha toda sua força no pedaço de pau que o pai lhe dera e sentia que o papagaio era muito forte.
O Sr. Martins vem correndo e ajuda a segurar o barrilhete, dá um pouco para o filho mais velho para que sinta a força, que é grande, e volta para Tidãozinho:
- Você aguenta com ela? - Perguntou francamente preocupado.
- Dá aqui que eu aguento!, respondeu sorrindo, olhos brilhando de felicidade, bracinho fino estendendo-se.
- Então segura, mas não solta que eu vou preparar o outro prá subir, tá bom?
- Deixa comigo pai!
- Vê lá, heim?
- Pode deixar!
Foi aí que seu Martins se afastou do pequeno Tidãozinho para cuidar da outra engenhoca voadora que o vendo aumentou um pouquinho... Não muito, mas o suficiente para que o pequeno Tidão sentisse que estava puxando bastante. O tal barbante elefante não arrebentava e a pipa subia cada vez mais... As gravatas iam de um lado para o outro, o fio cantava no vento  quando Tidão teve a primeira idéia de giríco de toda a sua vida: "Vou dar um pulinho"... E Deu!!!
Para sua infelicidade o tal pulinho rompeu o único elo de atrito que impedia o barrilhete de levá-lo. De pulinho virou um pulão e Tidão viu pela primeira vez em sua vida o chão se afastando enquanto subia num pulo de mais de cinco metros de comprimento e de altura... Morro acima! Gritou ainda no ar, e nesse momento, o Sr. Martins percebeu o erro que cometera! Seu filho estava voando no papagaio feito por ele! Jamais deveria ter deixado Tidão sozinho... Era tão levinho que tinha que ter previsto que o papagaio poderia arrastá-lo, mas o pior acontecera: estava sendo levado ao chão!!!
- Solta! Solta! Solta ele Tidão - Gritava desesperado enquanto corria atrás do filho que agora tinha pousado de bunda no chão, mas que continuava como se estivesse em um trenó movido a papagaio.
Tidão gostara, mesmo apavorado, mas gostara, só que não se atrevia a dar mais nenhum pulinho... Torcia apenas para que não saísse da trilha em que por coincidência estava de bunda, pois ao lado era só espinhos!!! Pilotava o papagaio, ou era pilotado por ele da melhor maneira possível... Com os "pezinhos" ia concertando o rumo para não sair da trilha e nem se quer ouvia o desespero do pai que corria atrás de si morro acima. Ia subindo em uma velocidade que jamais imaginara, olhos esbugalhados, determinação na cabeça:
- "Não solto!... Não solto!" E não soltaria mesmo! Cabecinha durinha de modo algum soltaria esse papagaio... Iria até o céu mas não soltaria...
E vai daqui, vai dali, a trilha ia se acabando já no alto da subida, a mais de cinquenta metros do ponto de partida, quando Tidão viu um cupinzeiro e um morrinho de terra bem ao lado do caminho.
Era lá!!! Ou parava, ou ia pro céu!... Preparou seus pezinhos com as famosas botas comando, a bunda toda esfolada, fez pontaria e tacou o pé no cupinzeiro e no morrinho ao mesmo tempo em que jogava, por instinto, o corpo para trás para conpensar a puxada que certamente viria, e veio. Parou!... Nem bem parou, o rolo de linha já queria escapar-lhe das mãos. Apertou mais os finos dedinhos e travou tudo... Só se arrancasse os dedos! Nessa hora lembrou do pai.
- Paiêêêêêêêêêêê...........
Seu Martins, correndo morro acima não chegou a tempo para evitar que o famoso barbante elefante estourasse com ruído de corda de violão arrebentando:
- Póimmmmmmm!
E lá se foi o Barrilheta... As gravatas... Seu Martins corre para o filho e o pega no colo examinando-o dizendo ao mesmo tempo:
- Graças à Deus!... Graças à Deus!... E teria continuado se Tidão não começasse a fazer cara de choro apontando para o céu e para o barrilhete que ia pelos ares falando:
- Meu barrilhete... Meu barrilhete!
Seu Martins pegou o Naninho que acabara de chegar onde estavam e avisou:
- Não mexam no outro barrilhete, tá!... Saiu correndo, parou, olhou para trás e gritou: - Fiquem aí que eu vou buscar o barrilhete... Não saiam daí!!! E saiu como doido atrás do barbante elefante, barrilhete e das gravatas.
Os meninos sozinhos, Tidão com os olhos ainda mostrando o susto da aventura aéreo-terrestre, Naninho perguntando:
- Como é? Foi legal?
- Foi mas dá medo, né?
Os minutos e lá vem o pai... o Senhor Martins, como que trazendo uma taça, com o imenso barrilhete nas mãos, as gravatas arrastando no chão, aproximando-se gela as veias ao ouvir.
- Agora é a minha vez, né pai, perguntava um ansioso Naninho!
- Vez de que?
- Oras... De voar!, responde para o aflito pai que não tem escolha a não ser elevar a outra obra de arte e acompanhar com as mãos um pequeno vôo do filho mais velho só para não ter que passar pela vergonha de ter favorecido apena um.
Bem, agora vamos embora.
- Ah! Pai...
- E tem mais: quem falar que voou para sua mãe, nunca mais vem comigo!!!
Prevenia e se precavia da tremenda bronca que poderia levar da esposa pela imensa imprudência que cometera com as crianças, mas no retorno à casa pelo menos uma coisa era certa: Estava criando dois moleques na melhor acepção da palavra... Só que essa do Tidão sair voando não estava no programa.

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