O Fabricante Do Fogo - Prefácio - Central dos Moldes

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maio 23, 2020

O Fabricante Do Fogo - Prefácio

O Fabricante Do Fogo

Meu amigo recente, Cesar Augusto Martins, me deu seus originais confiadamente para ler. Nós aqui do bairro Copema somos todos amigos, assim sem mais derrepente, sem querer, quase sem nos conhecer. Assim vamos. Até parece que os inaugurados íntimos todos eles têm lá seus talentos. O César Augusto é formado em Odontologia pela Universidade de São Paulo, mas conhece assim, meio que subitamente de oitiva musical tudo sobre dente, festa de São João, fogueiras, fogos, foguetes, fraques, faíscas, gravitações, dentes, seringas, agulhas, hipnotismo, antologia de Gonçalves Dias... "meu filho, lutar é vencer..." ele declamou tão lindo, que me esqueci do resto devido a emoção que descobri lendo sua noveleta cuiabano-paulista chamada "Noite do Balão de São João". Refiro-me ao livro que o maior crítico literário do Brasil, Leo Gilson Ribeiro, de SP também (grandes corações apaixonados), que telefonicamente me disse para enviá-lo imediatamente, o autor para o seu isbá, lá nos Altos da Boa Vista. Gostei sinceramente, para falar a verdade, afinal a gente vive aprendendo e ensinando, ele me declamou Gonçalves Dias, e eu lhe declamei Paul Verlaine em francês-paulistano-cuiabano, contamos casos e piadas de Mario Quintana com seus cachorros e seus porres à meia-noite, ou de Lord Byron agonizando na Grécia, em Myasolonghi, contra os turcos, sobre as virtudes do tabaco: "Divino tabaco que dás descanso ao labor do marinheiro marroquino e ao trapeiro cansado das noites londrinas. Mas vamos ao assunto: li seu São João revisitado: poesia pura, brincadeira de menino que não perdeu a sua pureza. Nos seus manuscritos ele mescla ladrões, marginais, gigolôs, putas, cálculos, criançada, mapas, geografias e histórias em horas e horas infinitesimais, coisas em que é mestre consumado, parece que já nasceu sabendo o homem, deviam dar-lhe uma cátedra vitalícia de mestre-odontólogo ou aprendiz de feiticeiro em seus escritos, parecido ao João Antonio, esse carioca do "Peru Malagueta e Bacanaço", esse mago semi-habanense-luso. Esteta fino, o Cesar que me ensinou em poucas horas como tratar com a boca e os dentes e as arcadas dentárias, etc. Homem bom, decididamente firme e agudo tanto em lógica matemática como em poesia de auroras e poentes ao fogo de um São João esquecido ou relembrado em encarnações passadas ou no recolhimento da tranquilidade. O Cesar tem talento com T maiúsculo. Balão de São João, festas juninas, 25 ou 24 de Junho, aquela fornalha de calor cuiabano ou frio de se enregelar e ele contando as brigas, a molecada assanhada no fabrico do tal Balão de São João. Gordo como ele só, só que no trato de feitura fina, estirpe de magros tomadores de café cigarreiro, à la Graciliano Ramos de Vidas Secas. O tema o pulento, deslumbrante é o Balão: o quanto custa a fabricar um desses? O maçarico ornitológico ou dutifrício? "Como de costume, fazer coisas que ninguém se lembrava de fazer antes". Aquela onda de romanticismo nostálgico e eterno. Ele, mestre dentista, em próteses e despróteses nunca prosaico, laboratório-consultório-labirinto como esse outro dentista genial o que é o cuiabano José Lobo, que hoje trabalha na Fundação Rondon, precisamos nos encontrar para comemorar. "Celebration, celebration..." Já dizia Beck e Malina esses gurus do teatro underground dos States. O Cesar como o outro Cezar, o da acupuntura, mestre-acupuntor, médico de almas e de almas, ambos, enfim, o do Yin/Yang e o dos dentes, nervos, parassímpatico e o escambal. Bom em fotografias, raios-x, mapas, viagens, motorista, bicicleteiro, cronometrias vagas, álgebras poderosas, viagens, matemáticas, alta voltagem, arcos voltaicos, astronomia milimetral e infinitesimal, e o redondo de sua paixão, o Balão, subindo, confundindo-se com as estrelas, segredos, geografias, faculdades, 1964, repressão, atrocidades, lembranças ainda não muito esquecidas, histórias e estórias como gostava mais mestre João Guimarães Rosa, do qual Cesar Augusto Martins e o outro Cezar, o Décio Cezar da Silva, o acupuntor lá no final da Joaquim Murtinho, no Porto, são leitores. Tesouras, facas, bisturis, jatos, teclados, jorros de água fria ou quente na gengiva, lápis, caneta, contas de luz, água e esgoto estrela cadente, demônio flamejante, amarelo, vermelho, preto, que esgota todas as vibrações, azul, verde, branco; o negro que recolhe redemoinhos negativos, seda, barricas, piões,  guias, brilhar, bolitas holísticas, painel e cangalhas, buchas e bocas, dentes para que te quero, para te comer melhor, cola, cruz, coisas de meninos, pipas, papagaios, vertentes que não esmorecem, a briga com João Baiano, o "irmão" ex-presidiário, classe média, burguesa quase, sangre latino y luz, Dulcinea Del Toboso y Don Quijote de la Mancha com su fiel escudero Sancho Panza, olhos de lince, mas algo sanpaku, que em  macrobiótica quer dizer algo de fatalismo árabe mourisco, por que sua avó era marroquina, e o resto da tribo portuguesa, olhos que leram as poesias e as prosas românticas e pós-modernas, o telescópio que olha a Ursa Maior, barão da gíria de antigamente mas não muito assim significava, uma nota de cem cruzeiros antigos para pôr gasolina no carango, musical paulistano do Tietê, ia dizer Tibet, Freguesia do Ó, Brooklin, parece até Nova York nos anos 20. Uma febre esbraseada entre quentões de ardentes fogos. Os amigos Walmir, Aldo, (nomes meio turcos, meio germânicos, amigos alemães como o Pedrão, gordos, altos, magros, briguentos, rixentos, etc.). Pintinho, pinto do baiano da anedota por ele contada freguesiamente. Tudo em gíria-argot, palavrões tipo filme "Eu sei que vou te amar com Fernanda Torres", levando o troféu de Cannes com seu Thales Pan Chacon, rodrigueano, influência beatnik de Jack Kerouak e dos poetas das tribos perdidas que talvez ainda voltem, mas em outras vidas que não viram mais, depois dessa. Arnaldo Jabor com certeza é um sábio chinês-árabe muito meditativo, igual ao Walther Hugo Khoury, a quem prezo muito e espero conhecer nos dias inteiros ainda da minha total e completa vida. Numerologia ou anamorfose, metamorfose ou polifonia, o de muitas vozes interpreta o astral às vezes e dá certo, e não é o homem que tem um talento enorme? Ora, segundo Gilberto Gil, tudo merece consideração. Vá, pois fazer o seu mestrado no Japão ou no México, frater irmão, amigo de outras vidas passadas e por não vir, graças a Deus-Padre todo Poderoso, amém, om. Pedais, pêndulos, perfumes, poeira e tempo, "o aprendizado difícil", tal como Clarice Lispector ou Walmir Ayala. Difícil é o reino diz ele em sua prosa intimista. Amianto, bares, pingas, whiskys, vodkas, rums, cubas-libres, aranha, lógica maior e lógica menor, chopp's, em oitiva gravando a comunicação do onisciente-onipresente, planos, projetos, cosmos, orbes, flechas, ubá, jaú, São Paulo nos dias de sábado, segundo Caio Fernando Abreu em "Morangos Mofados" ou "Triângulo das Águas", ou conforme a altura do sol em Leo Gilson Ribeiro, ou segundo a altura da lua, basça lua espessa Roxana de Hilda Hilst na Casa do Sol ou da Lua, sei mais lá, ervas que só dão daquelas bandas com outros cheiros, o Rossi, o Isaque, o Pedrão (alemão), os baloeiros kerouakianos hippies ou semi dos dourados e lacrimogênicos anos 60 ou 70, talvez, 80... o subterrâneo underground. Bisavó do Congo como eu, marroquina como eu que sou também asiático, pois quem não sabe que sou pelo lado materno de sangre latino? Lisboeta de coração, Ferreira do Nascimento Silva (judeu e árabe mesclados eternamente apesar da guerra Irã/Iraque). "Tórroidas em cima": o que é isso? Inventa palavras nosso mestre e aprendiz de mago, como Guimarães Rosa, todas as vertentes fluem para os mesmos rios, o semelhante atrai o semelhante, vagamente impressionista ou expressionista, tupi or not to be? Temas a serem abordados no assunto Balão: imensidades. La divina encrenca, imbróglio, ko-han, como o "Duas Vertentes" do José Lobo, aquela meditação que desfaz a ilusão arbitrário-egoística do ego quando se pergunta por exemplo: de onde veio o Nada? Quem já leu o Evangelho ou o Apocalipse de São João? Segundo o mestre-meteorologista-acupuntor Décio Cezar da Silva, lá em suas barbas negras me segredou por telefone: dia 16 de Agosto de 1987 acabou a Era de Peixes, e se iniciou a Era do Oquário, assim sem mais. As cores, maravilha Elke Maravilha, punk, funk, hippie de branco, poeta lírico se dizendo amador, como Vilella Montanha, tendo muito de sozinho ("solidão tema para ser abordado"). Opalas vermelhos e fuscas verdes, amigo dos companheiros, concentrado seu estilo às vezes monossilábico como Cummings. Ouro, garimpos, jóias, overdose de cocaína, elite de garimpeiros, sés, sedes e sociedades. Realismo mágico ou pós-moderno? A moda, o nada, a estrela Vênus. Aspa de bueiro, gurizada, molecada, dentes sorrindo, chorando, vindo ou partindo, a Turma da Coruja, Turma da Fantasia, o cigarro às vezes faz correr lágrimas ao descobrir um bom autor nacional. Hildefonso, Minhoca, Tigueis, a importância dos Nomes, a fundamentação da nomenclatura segundo rosa e outros com Cèzane Lima, o cubano fumador de charutos Havana, Cantoro, ladrões, fina-flor da malandragem, parece filme de Hitchcock, o suspense, aquela coisa que vem vindo sem saber, tateando no escuro de tudo. O de muitas vozes e de pés de latão reluzente como latas velhas de leite condensado, encontradas fortuitamente no fundo dos quintais, quem entende de caninos, entende-se é bull-dog ou hot-dog ou gato meditativo ou dentista, obviamente sutra-metafísico, nostálgico, altas alturas, altos do Copema, altos galos que cantam entre galinhas amarelas à la Van Gogh ou Toulouse-Lautrec, o anão genitálico, altitudes, 400 resgateiros, regadeios, baloneiros ou baloeiros, ou baleeiros nas neblinas das manhãs, a Linguagem, sua luz instantânea, minudente, astral, penitente, descomplexo, inexplicável, o Pasquim dos anos 60, graffittis luminosos e luz néon nos postes e letreiros mercuriais dos muros de São Paulo ou Cuiabá, fumador inverterado o Cesar Dr., bom papo, tem um bar na frente de sua casa, tocando de noite música sertaneja, já imaginou? Foi futebolista esgrimista em que épocas, idos, calendas, cronologias lentas, cosmologias vagarosas, eras, longevidades, etc. Na estrela iniciada por Deus no Universo (ele cita Deus não sei quantas vezes) fala escrito em dinheiro, soledad, entomologia, sorte e Deus. Porque a gente nunca se deve cansar de falar em Deus. Em todas as línguas, ele concede tudo, tudo o que se quer, é só saber pedir. Tilápia, (peixinhos que meu pai queria criar numa chácara lá no Caxipó do Ouro em outras outroras que já se foram). A particularidade do tempo. Quinta-feira, Abril de 1984. Mavericks, sábado à tarde em algum ido passado onde, você também é mongol relojoeiro germânico emigrado do tempo dos indo-europeus, meu Dr. Cesar Augusto? Sábado: sabbath dos hebreus, paraíso de Maomé onde existem 7777 pérolas, cada uma tem 7777 mulheres lindíssimas e diferentes, cada uma num dia e onde o tempo não passa, bebeste da água da memória e da imortalidade ou das do esquecimento, meu amigo de outras transfusões transmigradas? Lanternas e cascatas, chuva de prata, cores e linhas, o senso de humor, mão firme e presença de espírito, o olho que enxerga e sabe reconhecer. Denise, as mulheres-moças: tudo pronto para a soltura. Cavaletes, membros e reis na barriga, o Kim (Somerset Maugham ou Rudyard Kipling), o Pedrão alemão entre louros e rubros de fogos (glória tão simples e distraída). Livro lido em revistas de quadrinhos? Sedlacek, Metek, mouros, tchecos? Boa memória para um romancista total, confabulario geral. Cara de Cristo (Tentei...) A poltrona do dentista lá atrás. Silêncio. Sensação de já visto (dèja vu), ranger de dentes. Será James Joyce em leituras revisitadas ou Samuel Beckett que com ele raia? Igreja do Ó. Vias Dutras e Castelos Brancos, nomes ex-de ruas... Padre Bartolomeu de Gusmão em 1720. O tema Solidão. É Fantástico. Sozinho? Inteiro. Balões de São Paulo. O texto que fica. Cristo, Deus, o perfil que permanece do Crucificado entre ladrões no Gólgota. Tentei eu também fazer uma sessão não sei do que, se de análise transpessoal ou Faculdade de Educação nos idos de 68 lá na Praia Vermelha no Rio, Botafogo, teoria de aprendizagem, Otto Rank, quem sou eu? Quem somos nós? O seio mau: álcool, deve ser esquecido. O seio bom deve ser recordado sempre: o mel, o leite, as águas da Criação de Deus antes da Vida: vichara, Maharishi Masheeh Yogi, Bhagwan Shree Rajneesh, Swami Pabruppada, o sentimento de um eterno domingo que fica e de que a estrela ou o Balão sobe. Alegria, sensação de que nosso poder cresce. Eterno estado de Graças. Não sou homem de ilusão, falo a verdade. somos eternos meninos sábios poetas afilhados de Orpheus, verdadeiros semitas e verdadeiramente alemães, mas silenciemo-nos e cultivemos a Transparência (glasnost). Ciao.

Cuiabá, 25, VIII, 1987

Ricardo Guilherme Dicke

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