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maio 23, 2020

O Fabricante Do Fogo - Introdução

O Fabricante Do Fogo

Tudo começou com um padre chamado Bartholomeu de Gusmão, há duzentos e tantos anos atrás, ou seja, em 1720 mais ou menos.
O nosso amigo bolou um balão de papel e se mandou para ares, nele.
Diga-se de passagem que aí não começou nada que nos interesse, mas foi a primeira soltura que tornou-se famosa porque estavam presentes autoridades de porte, etc... e tal. Porém, o que realmente nos interessa são alguns artefatos chineses que viajantes portugueses viram e difundiram, chegando até os dias de hoje.
O Fabricante Do Fogo - Introdução
Eram balões artisticamente decorados (coisas de chinês, sabe?), que eram soltos por qualquer motivo besta (mais ou menos como hoje também). Tinham suas buchinhas, e o que os historiadores não nos contaram é se tinham problemas nos resgates dos mesmos.
Como o impacto visual desses balões era grande, e ainda é, os coitadinhos não demoraram muito para, na mão de Jesuítas, servirem de chamariz para juntar os índios e catequizá-los. (mais ou menos como hoje também).
Dizem alguns que na época de inverno era mais difícil de se ter sucesso em festas ou reuniões, e aí começou a brincadeira de soltar balões em festas de São João, São Pedro e Santo Antonio, para atrair multidões. De lá para cá a coisa veio de mansinho, até que soltar balões tornou-se contravenção penal.
Em se tratando de coisa proibida não há como o brasileiro para dar um jeitinho e quebrar o galho, e como tudo o que é proibido é bom, os balões continuaram alegrando festas de delegados, deputados e até senadores. Presença constante e proibida em festas juninas lá iam eles, viajentes celestes, carregando uma ou outra lanterna, comemorando Copas do Mundo, aniversários, noivados e outras solenidades.
Tudo ia muito bem, não morria quase ninguém, os incêndios causados por balões não eram significativos, pois o número de pessoas no resgate sempre foi grande, e não dava - como ainda não dá - tempo de um incêndio assumir proporções maiores na presença do pessoal. Não é bom, e nunca foi interessante que balões causassem prejuízos a alguém.
Aí um belo dia apareceu um carioca, que colocando a massa encefálica para funcionar, descobriu que o balão tinha força ascensional e que esta força poderia levar pesos, e que estes pesos poderiam ser fogos ou bandeiras, ou um monte de lanternas organizadas ou não. Daí para o balão moderno foi um pulo. Aumentou-se a resistência dos antigos balões de seda, mudou-se o papel para outro mais forte, surgiu a necessidade de se reforçar os balões através dos cintamentos verticais e horizontais, e então crescer era automático, pois quanto maior o balão, maior seria a carga que o mesmo poderia levar. Evidentemente a pergunta foi:
- Até onde isso pode ir?
- Quais os seus limites?
O formato "batata" foi eleito veículo, e, isto devido à simplicidade de confecção e segurança em função do volume interno do balão, bem como a sua estabilidade.
Montes de lanternas organizaram-se sob forma de painéis, os fogos em cangalhas lindas e enormes, os balões diurnos ganharam outro irmão, o pião carrapeta e suas bandeiras; aí o gigantismo se iniciou.
Como o balão é uma tela redonda e simétrica, o número de decorações viáveis rapidamente caiu numa certa repetitividade e a saída para se ter destaque passou a ser o tamanho. Quem fizesse maior chamaria mais atenção dos outros, e ninguém queria ficar por baixo.
Deu no que deu: balões com até 66 metros de altura passaram a ocupar o céu. O perigo começou a crescer, as autoridades começaram a intervir de maneira mais efetiva, a arte virou rotina, a vida periclitava, os ídolos começaram a cair ou se afastar!
O resgate vira recrudescendo e seus atos de vandalismo começaram a chamar mais a atenção do que deveriam ou poderiam. As queixas vieram a se acumular nas delegacias. Os piões carrapetas tiravam o sossego de um monte de trabalhadores nos domingos de manhã, as cangalhas despencavam, as "boquinhas" com suas "buchinhas" começaram a arrebentar telhados. Buchas de mais de cem quilos vinham do céu ao solo!
As turmas em competições ferozes disputavam uma série de festivais em busca de taças vendidas por atacado em lojas esportivas, e aquele brinquedinho chinês de antigamente estava irreconhecível.
A revolução do balão atingiu níveis inacreditáveis, com um número perto ou acima de meio milhão de pessoas confeccionando, participando e assistindo.
Aficionados iam ao campo como fazem alguns para ver uma corrida de automóveis, onde o interessante passou a ser o desastre. Qual público de Circus Romanus. Uma emoção barata e violenta. Um impacto visual fortíssimo e um laser bizarro. Ser baloeiro ou ter um amigo baloeiro virou status. Era diferente! Era fantástico!
Iniciou-se a internacionalização do balão com o envio de correspondências para outros países, aparecíamos em programas tipo "Curiosidades" ou "Mundo cão", passamos a ser admirados entre outros povos como artistas e como animais de zoológico também, insanos!
E o balão ai está... Uma tradição, um costume de um povo que leva a brincadeira a sério, criativo e comunicativo. Talvez um dos poucos povos do mundo que tem a coragem de fazer passar voando sobre uma cidade de quatorze milhões de habitantes um balão de papel com 130 quilos de bucha, fora cangalhas de trezentos quilos de peso, e ainda dizer na maior cara dura que o balão é seguro!
O que dizer das multidões que a isto vão assistir e que volta e meia são bombardeadas por cangalhas que detonam no chão sobre elas próprias?
Interessante; não?
Mais interessante é que o número de baloeiros e de espectadores aumenta diariamente.
Este tipo de atividade, no entanto deverá ter uma origem... o baloeiro deverá ter um perfil, uma história pregressa, um começo... uma infância.

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