O Fabricante Do Fogo - Do Autor - Central dos Moldes

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maio 20, 2020

O Fabricante Do Fogo - Do Autor

O Fabricante Do Fogo

Dedico este trabalho às pessoas que participaram conosco de todo um processo de amadurecimento de uma arte popular. Ás mulheres dos baloeiros que normalmente foram marginalizadas, esquecidas em seus lares enquanto seus bravos guerreiros trocavam tapas madrugada a fora pelas ruas da cidade, peregrinos em busca de suas Mecas chamadas Balões. Ferozes combatentes perante os quais iraquianos e iranianos, judeus e árabes, americanos e japoneses, alemães e franceses, sentir-se-iam como uma bicicleta diante de um transatlântico! Terríveis baloeiros destruidores de telhados, varais de roupas imaculadas, capazes de subir em um prédio de cinco andares pelo fio do pára-raios, tudo para resgatar um Balão! Romeus modernos em procura desenfreada de suas Julietas aéreas, olhos de lince regados a colírio para melhorar a acuidade visual, supersticiosos, apaixonados, pacientes a tal ponto que comparados a eles, os habitantes da China seriam um aglomerado de nervosinhos irritadiços! Aos indômitos pilotos, navegadores da noite: aos carros destruídos... ao sorriso do resgateiro campeão, aos que caíram de telhados e já sentiam o vazio crescente sob seus pés até chegar ao solo pátrio (duro) no final da queda... aos gessos e aos óbitos, aos atropelados, aos baleados também! À arte, aos balões que fizeram história, ao sucesso de todo um planejamento, aos imensos painéis que enfeitaram e alegraram milhares de pessoas, aos gorros sobre as orelhas, às bancadas e às mensalidades, aos fogos e às despesas imensas, à flecha ubá, rami, cola branca, ao Floor Post, ao Hulk (eletrostático), às resmas e bobinas; às velas de macumba (que nunca nos trouxeram azares pois elevamos as oferendas das velas sob forma de bucha até perto dos Orixás e Babalaôs), e por isso nunca fomos castigados. Ao fogo sagrado da bucha, ao ronco surdo e grosso do maçarico que conclama e aproxima a multidão para a comunhão do Balão, ao silêncio que se impõe quando apagam-no e fica aquela lua amarela vinda da bucha; ao banho que todo bom baloeiro toma de parafina derretida e que nunca queimou ninguém... às camisetas bordadas ou borradas, ao Sonho e à Fantasia, aos loucos e aos serenos.
Aos balões que não subiram por causa de fatalidades outras que não foram técnicas, à alegria do sorriso de uma criança a quem um baloeiro deu uma lanterninha do final de uma escadinha do bojo do balão para segurar, e ao seu rostinho iluminado pela luza da vela com aquela tremenda responsabilidade nas mãozinhas, andando para a frente e para trás, acompanhando o movimento do balão, mostrando através de si, do seu rostinho iluminado, o que é a tal da felicidade!!!
Aquela criança que fomos e teimamos em ser, àqueles que só cresceram profissional, familiarmente e também cronologicamente, mas que são moleques incuráveis que choram e brigam, que ficam de mal... e de bem.
Aos que partiram, que largaram a arte, e até aos que a combatem sem saber o porquê, mas principalmente a todos aqueles que um dia em suas vidas viram um balão de perto ou de longe, que jogaram pedras ou ajudaram a soltar, que puseram lanterninhas ou simplesmente olharam à distância, pois estes jamais esqueceram o que viram, jamais conseguiram apagar da tela da memória o quadro gravado a fogo, indelével que é.
O fabricante do fogo tem por finalidade mostrar uma mínima parcela da arte dos balões, mas acima de tudo, uma parcela da vida do baloeiro, o que o movimenta, o que o anima, o que o faz ir contra tudo e contra todos, catando sonhos no universo dos pensamentos e jogando para o papel, devolvendo-os para o céu, e correndo atrás deles novamente.



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