O Fabricante Do Fogo - 2. O Balão - Central dos Moldes

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maio 31, 2020

O Fabricante Do Fogo - 2. O Balão

O Fabricante Do Fogo

Festa chata prá cacete! O tio Jacó mostrando para todo mundo a beleza das coxas de sua filha Norminha, nem dando bola para a vergonha que a menina estava passando. Vovô Alberto, aquela montanha de ser humano, com sua voz e seu charuto na boca, insistindo em pegar o Tidãozinho no colo. Vovó Lili e sua voz estridente proibindo tudo. Festa do cacete, chatérrima!
O Fabricante Do Fogo - 2. O Balão
Todo mundo almofadinha, Naninho todo decorado e molhado pois ainda tentavam limpar o barro. Tidão malhado pelo tapa que levara. Sr. Martins evitava olhar para os dois filhos, pois sabia que acabaria dando risada. Dona Maria, putíssima, pois havia percebido a gozação estampada naquele sorrizinho sem vergonha do marido, prestes a morrer de rir. Sem dúvida aquele pai adorava os filhos; pregou a mão por não ter outra alternativa, mas se acontecesse com o filho de qualquer outra pessoa sentaria no chão de tanto rir: era um gozador!
Tidão estava quieto, até a hora que o chamaram para tirar fotografia!
- Fotografia pra quê? respondeu rápido.
- Moleque mal educado, levou de troco da avó, que ainda ameaçou: - Vou chamar teu pai!
- Tá bom, eu vou (concordou por falta de opção).
Uma vez feita a foto familiar, irreversível, documento hábil para as gerações vindouras, foram todos liberados. O sapato apertava como um torniquete, aliás não era bem um sapato... O pai conhecedor dos filhos já dava logo daquelas "botinhas comando", duríssimas e que tinham melhores chances de sobrevivência principalmente como o "Tidãozinho". Era barro, pedra, lata, toco de pau, canela dos outros, tudo enfim que traduzia-se num tremendo teste de resistência... tudo que pudesse acabar logo com elas para que voltasse a andar descalço, que era seu prazer, mas na festa não iria dar tempo de destruí-la... ficou andando de um lado para o outro, olhando aqui e ali, fugindo de um tio daqui e outro dali, escapava do avô de todas as maneiras: detestava aquele negócio que inventaram de ter que beijar a mão do velho como todos os outros faziam, o que recusou logo de cara criando um impasse no qual até seu Martins teve que intervir:
- Não reparem não, é que eles não têm esse costume lá em casa... Justificava e apoiava o filho pequeno.
- E não tomam benção de ninguém?
- Não, de ninguém... nem do padre!
- Esquisito, né?
- É...
Salvo pelo pai da primeira coisa chata da festa Tidão continuou olhando para o que pudesse interessar, mas nada interessava a não ser o fato de contarem que havia um sapo dentro de um vidro, e que pulava nas crianças mal educadas (ele... lógico), e passava desconfiadíssimo em frente à cristaleira onde estaria o sapo dentro de um caneco. Festa chata! Se pudesse, ia soltar o sapo!
O dia transcorria, chegou a noite e nada mudava, até o tio Zé, o mais legal da festa e o melhor tio, talvez por ser o mais novo, juntamente com o tio Mayer que vendia sapatos no centro da cidade, começaram a chamar atenção geral com suas movimentações: andavam rápido, uma expressão estranha nos olhos, não paravam para conversar com ninguém, pareciam dopados ou coisa que o valha. Estranhíssimos. Tidão foi se aproximando e tentando acompanhar a coisa. Vai prá lá, vai prá cá, olham em cima do guarda-roupa, Tidão olha também e não vê nada a não ser uns papéis coloridos, bem dobradinhos (mania de guardar certas coisas em cima do guarda-roupa!), Zé sai, (Tidão vai atrás) fala com o Mayer, chamam o Daniel e o Samuel, lembram-se do Coca, vem a tia Guina, Pérola, Berta, enfim a família toda. Vão para a calçada, olham para cima... todo mundo olha e não vê porra nenhuma, os dois vêem alguma coisa, voltam para dentro, Mayer vem com uma lata de cera!
Cera?!!!
Será que iam encerar a calçada? O pessoal da festa já estava ficando ouriçado, saiam, entravam, uns melhor informados já comentavam que estava na hora... hora do quê?...
O Zé pega um saco de estopa, abre no chão e dá uma ordem: As velas... onde é que estão as velas?
- Taqui, ó.
- E a faca?
Toca procurar a faca, e Tidão que tinha visto uma no armário corre lá e vem com ela na mão.
- Não corre com a faca na mão que você pode se machucar, falou o Zezinho com carinho e um sorriso.
- Tá bom!... não corro mais.
- Bom menino, falou, e acariciou a cabeça do sobrinho que lhe sorriu.
Abriu o saco, pegou as velas, raspou um monte delas... umas 16 mais ou menos, dobrou as beiras para dentro, fez um "rocambole", encheu de cera... quase meia lata de cera novinha da Silva, enrolou, pediu um arame para o Mayer, juntaram os dois, e com um esforço sobre-humano, prenderam tudo com arame grosso, torcendo o que sobrou numa espiral meio comprida.
- Cadê o querosene?
Querosene?... pensou Tidão, o que será que vão fazer agora?
Trouxeram, jogaram em cima do tal rocambole, ensoparam bem, agora começaram a balançar com força de um lado para o outro jogando tudo fora de novo pela ação da força centrífuga.
- Primeiro molharam tudo, e agora jogam tudo fora... não tem lógica, pensava o moleque que não perdia um detalhe se quer.
- Traz o pano...
Veio o pano, embrulharam aquilo tudo no tal pano, a lata de querosene jacaré num canto, Mayer entrou dentro da casa enquanto Zezinho colocava o tal rocambole em cima do muro longe da criançada. Ria muito para os meninos e esperou a chegada do Mayer que veio junto com o Jacob e o Beni, cercados de gente por todos os lados, com um monte de papel dobrado na mão... aquele que estava em cima do guarda-roupa.
Era um tal de balão como dizia sua tia Guina, um balão-pião!
Um balão-pião! Até que enfim ia ver um desses de perto, só os via no ar em cima de sua casa na época de São João, e ali estava um em carne e osso, ou melhor em papel, cola e arame.
Tinha uma boca com um travessão no meio. Pegaram uma tampa de panela, deitaram no chão segurando a boca, e começaram a dar ordens como generais em plena campanha:
- Pega o bico e levanta aí em cima do muro...
- Você aí, abre esse gomo... Vai, abre mais...
Mayer veio com a mecha enquanto Zezinho abanava freneticamente o balão enchendo-o de ar e dando formato ao mesmo. Colocaram a mecha e mais ordens:
- Olha o papel aí que está molhando...
- Segura esse bico direito, afasta mais pessoal que eu vou tacar fogo!
Tidão estava simplesmente maravilhado, via e não acreditava no que via... imenso, todo colorido, todo mundo besta ou bestificado, Zezinho acendeu um fósforo, encostou no rocambole e o milagre do fogo começou a fazer o seu serviço.
O balão ganhou vida naquele início de noite... iluminou-se todo, foi enchendo cada vez mais, arredondou totalmente... soltaram o bico, pois já se mantinha por conta própria; um silêncio de morte desceu pela rua toda... as pessoas falavam baixo para não atrapalhar... o balão estava vivo... como um parto ganhou vida para uma viagem celeste.
Zezinho de um lado Mayer do outro, o balão no meio pego pela boca já querendo subir. Sem aviso, sem nenhum aviso, só na troca de olhares os dois irmãos largaram a boca do balão que ganhou rapidamente os céus, deu uma paradinha como quem procura algo, virou para os lados, subiu mais um pouco lentamente e foi embora descobrir outros lugares... Voou!
Olho no céu, coraçãozinho na mão, um nó na garganta que não descia. Tidãozinho queria estar lá com ele, queria subir junto... não aguentava de felicidade! Olhava para o pai ao seu lado que olhava o balão e agradecia mentalmente por estar na festa, pelo menos essa valeu a pena... Não precisou pensar muito para ter uma certeza: Quando crescer ia fazer um igualzinho... ou talvez maior, ou talvez melhor!

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