O Fabricante Do Fogo - 1. A Poça - Central dos Moldes

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maio 29, 2020

O Fabricante Do Fogo - 1. A Poça

O Fabricante Do Fogo

Lá pelos cantos do tempo o molequinho estava sendo arrumado como um almofadinha o que, diga-se por alto, detestava.
Tirar aquele calção imundo, ter que tomar banho às 14:00 horas de um sábado, e o pior de tudo era ter que largar aquela caçada de passarinhos à beira do córrego com os amigo, e ficar todo empetecado por causa daquela porcaria de aniversário.
Ter que pentear o cabelo, colocar meia e sapato, até cuequinha - vejam só - não tinha sentido nem a mínima graça! Mil vezes ir caçar... quem sabe até aquela sabiá perto do sítio da dona Palmira estivesse lá denovo esperando... E, tome perfume na cabeça. Que humilhação, ainda mais que os amiguinhos estavam todos no portão para ver o "florzinha" saindo... ia dar briga com certeza!
O Fabricante Do Fogo - 1. A Poça
        Não tinha como fugir, o pai se arrumando, o irmão mais velho todo cheiroso, mas ele gostava, não tinha mesmo amigos para ir brincar então tudo bem, porém o molequinho não: Estavam tirando-o de seu mundinho para levá-lo à casa do avô, a um aniversário. O que ele queria era estar no mato, descalço caçando pássaros, comendo goiabas roubadas -  é lógico - trepando em árvores, olhando aquele ninho que tinham descoberto há poucos dias só para ver se os filhotes já tinham nascido e coisas assim, mas... não!
Tinha que ir àquela merda de aniversário que sem dúvida seria igual a tantos outros que já tinha presenciado. As primas que não conhecia, todos adultos rindo da sua magreza e do tamanho dos seus olhos, as piadinhas de sempre chamando-o de sabiá ou pernilongo e aquela montoeira de sorrisos de merda só porque era magrinho...
No fundo este moleque sabia que a vida dos magros começa mais tarde, pois são os últimos em quase tudo. Os últimos a serem escolhidos para a pelada, os últimos na fila indiana de caçada com adultos, os últimos a bater e geralmente os primeiros a apanhar, e aquele monte de gozações só o entristeciam. Agora gente mesmo ele se sentia em companhia dos amigos, quase de sua idade e era bom pois todos sem exceção eram magros... Poder-se-ia chamá-los de turma dos magrelas. Como todos eram iguais não havia discriminações e todos eram felizes.
Como o que não tem remédio, remediado está, vamos ao tal aniversário, afinal quem sabe poderia acontecer alguma coisa que prestasse nesse evento. Junho chegava ao fim.
- Pai, lá na casa do vovô Alberto posso brincar na rua?
- Olha Tidão, se não for sair da calçada não tem problema. Disse seu pai com olhar carinhoso por saber o suplício que seria uma festa destas para o filho acostumado nos matos e rios, chamando-o por seu apelido.
Tudo arrumado e lá vão todos para a festa. A mãe, o pai, o irmão e ele.
A rotina se repetia. Sair de casa pela rua de terra, caminhar aproximadamente um quilômetro até o ponto do bonde João Mendes - Santo Amaro, sentar numa pedra e esperar... o desgraçado sempre demorava, e na demoea o bombardeio de perguntas ao pai:
- Pai, se colocar uma moeda no trilho o bonde vira?
- Acho que não meu filho, mas estraga a moeda.
- E se for pedra, perguntava o espírito ladino atrás dos limites...
- É capaz da pedra voar em cima de você, dizia o pai explicando e prevenindo uma eventual tentativa...
- E se for uma barra de ferro daquelas que tem no ferro velho?
- Bem meu filho, aí você pode descarrilar o bonde, dizia olhando os olhos vivos do moleque, e continuava: pode matar um monte de gente e pode levar uma tremenda surra para completar.
Vendo o brilho nos olhos do filho sumir percebeu que este perigo estava mais ou menos afastado... Queria Deus, pois o moleque não era fácil...
Enquanto esperavam o bonde a índole irriquieta do Tidão não lhe dava um minuto de sossego. Mal viu o pai e a mãe entrarem num assunto que os absorvia notou que o irmão, o Naninho também estava distraído olhando nem sabe para onde.
Reparou também na poça d'água aos pés do irmão, barrente vermelhinha, feita daquele barro que depois de seco fica amarelado com vermelho e que não sai à toa. Olhou bem a poça d'água, olhou a posição do irmão, fez os cálculos, levantou o sapato novinho que enfiaram em seus dedos escarranchados de andar descalço, conferiu novamente a posição dos pais, simulou um desequilíbrio e meteu o pé direito com força na poça.
PLOFT!!!
Perfeito! Inigualável! Bem burro!
O irmão Naninho, entre surpreso e admirado, vendo o lençol de lama que se levantou mal teve tempo de dar uma viradinha e tomou da cintura para baixo um verdadeiro banho colorido que lhe tingiu a roupa nova e perfumada de modo indelével.
Seu pai e sua mãe levaram alguns segundos para entender a extensão da tragédia que se abatera sobre o Naninho, e mais alguns para perceber naquele rostinho preocupado e arrasado uma pontinha de sorriso. Tidão não se aguentava mais, não conseguia esconder o riso por mais força que fizesse e... escapou, pelo cantinho da boca uma risadinha enquanto a mãe, abaixada, tentava limpar o Naninho, o que aliás só piorava, pois espalhava e aprofundava a sujeira.
- Mas Tidão... o que aconteceu? Falava a dona Maria enquanto limpava o filho infeliz... falava, mas não olhava, só olhou quando escutou dois seres humanos correndo. Tidão na frente gargalhando e o pai atrás, furioso! O azar do golpe é que o Sr. Martins tinha visto o cantinho da risada, e daí para a frente não tinha como simular mais: era dar no pé e fosse o que Deus quisesse.
Não correu muito não! Foi alcançado! Pego!
Mãos de ferro o agarraram pelo bracinho, cingiram-lhe a liberdade, levantaram-no do chão e o arrastaram para o local do crime onde mãe e filho choravam desconsolados! A cena era por demais patética para impedir o acesso de riso! O pai aproximando-se, levantou a mão livre e pregou-lhe um tremendo tapa na bunda esquerda deixando marcas de dedos que, por experiência própria, sabia que levariam pelo menos uma semana para sumir. A mãe furiosa, mesmo assim mãe, impede o pai.
Tidão chora, Naninho chora, a mãe chora. O pai taciturno é sério! Vem vindo o bonde... a mãe quer voltar, o pai decide que vai assim mesmo, suje e tudo! Vem vindo o bonde... Desce o morro do Brooklin, despenca e logo vai parando. O bonde, um do tipo camarão, para - sobe primeiro a vítima, atrás vai a mãe, Tidão, e por último o pai. Neste instante se alguém olhasse para o Sr. Martins veria que estava rindo.

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